As boas surpresas das escolhas erradas...
Pois bem, ela se chamava Flora. Era o tipo da criança que não tinha lá muita sorte. E apesar do nome, parecia que a vida lembrava-lhe a todo tempo que não eram tudo flores.
Na escola, Flora, apesar de estudiosa, só tinha notas vermelhas no boletim. Isso devia-se ao fato de que SEMPRE colavam dela, e ela era prejudicada devido às cópias. Pensava que parar de passar cola não era a solução, já que tinha certeza de que sua vida social era mais importante que aquilo alí. Vida social? Tinha. Só não tinha amigos. Até aparecer Sara. Sara acabou tornando-se sua melhor amiga e pela primeira vez, Flora soube o que era amizade de verdade. Mesmo que por trás daquela amizade, Flora soubesse que havia alguma dose de interesse...mas se contetava assim mesmo.
Então, foi no verão em que Flora completou 13 anos que apaixonou-se pela 1ª vez. Ele era da escola. Sabia que era do turno da tarde. E por isso passou a frequentar todas as aulas de ginástica do colégio para poder olhá-lo...de longe. Já era o suficiente. Sim, porque logicamente, ele era o menino mais bonito do colégio. E o menino mais bonito do colégio era apaixonado pela menina mais linda do colégio....que com certeza não era Flora. Acontece que o excesso de aulas de ginásticas causaram esgotamento físico em Flora, que viu-se obrigada a abandonar os esporte e as visitas à sua paixão platônica. Deixou a paixão de lado, apesar de nunca esquecê-la. Suprime o sentimento em um pequeno caderno onde traduz suas desilusões em palavras e desenhos.
Foi então que conheceu Eric, do time de basquete. Por quem não era apaixonada, mas que serviria para o papel de primeiro namorado. Até que Flora descobrisse que ele era o melhor amigo da sua paixão platônica, e ela não conseguir continuar o relacionamento.
O tempo passou. E apesar da idéia fixa do sentimento platônico, Flora decidiu dar seguimento aos seus planos. Resolveu prestas vestibular para Administração....e prestou. E tinha certeza que iria passar. Até descobrir que em seu cartão-resposta havia pulado uma questão.
Depois de já ter desistido, resolve escutar o resultado no rádio..."só pra escutar os sobrenomes engraçados" ela dizia. Até que começam os aprovados no curso de Administração. Ela com um nó garganta, escutou até o último segundo. E é no último segundo, quando a locutora diz " E Flora..." que o nó se transformou em grito.
Então a vida foi seguindo nesses encontros, desencontros, enganos... e depois de formada resolveu caçar seu outro sonho; trabalhar para uma multinacional. E inscreveu-se para a vaga. E foi selecionada para entrevista.
No dia, Flora saiu de casa mais cedo e pegou o ônibus....errado. Após 1:30h, entendeu a situação. Cruzou os braços, olhou pra cima e se perguntou o que fazer....chorar? Flora teve uma crise de riso em meio ao ônibus. E apesar de metade do ônibus simplesmente não se importar e a outra metade achar que ela era louca, um estranho sentou-se ao lado dela e perguntou se ela estava bem. Ela explicou toda a situação. Ele replicou dizendo que também também estava no ônibus errado...estava rumo ao seu casamento, no cartório. Mas depois de uma hora pensando naquele ônibus, havia chegado à conclusão de que não queria casar-se de fato. E que a entendia, já que tinha tido a mesma reação que ela quinze minutos antes de ela entrar no ônibus.
Sei que entre conversas e risos, Flora conhecia alí seu futuro marido, mesmo que naquele momento, ela nem pensasse nisso. Mas pela primeira vez havia esquecido sua paixão platônica da época da escola.
Ao descer do ônibus, resolve parar no bar da esquina. Finalmente tinha anos de motivos para encher a cara e dormir na rua. Sentou-se no balcão, pediu uma dose de vodka e tirou seu caderno do bolso. E foi entre riscos e palavras, absorta em tristeza, que ignorou o homem que espreitava sobre seus ombros o resultado de anos de sua infelicidade. Acontece que o homem era um dos melhores editores da cidade.
Interrompeu-a perguntando se ela já havia pensado em publicar alguma coisa. Flora assustou-se e derrubou sua dose, respondendo timidamente que não. Foi quando ele pede para ler seu caderno e identificou-se como editor.
Bom, foi desse caderno que saiu um livro escrito e ilustrado por ela. E esse livro tornou-se um Best Seller. E o Best Seller rendeu-lhe outra publicação....e mais outra....e mais outra....
E era então que do alto (não tão alto) de seus 40 anos, casada, escritora e mãe de 3 filhos, que Flora pensava que a vida poderia até não ser tudo flores, mas estava longe de ser só espinhos. E que o seu hoje era bem melhor que o amanhã que ela desejara por tanto tempo.
PS: Devaneios meus para um pedido de socorro. Poderia ter trabalhado mais o texto, mas taí! A vida é esse emaranhado de encontros e desencontros, de emoções inesperadas e de frustrações que acabam tornando-se boas escolhas, já que a vida pode reservar-nos algo melhor. O que quero dizer com isso tudo é; NEM SEMPRE O SONHO QUE TU ALMEJAS É TÃO BOM QUANTO A REALIDADE QUE TU CONSTRÓIS.
PS2: Como boa praticante do Tarô de Marselha, não podia deixar de colocar aqui algo relacionado. Achei coerente postar a carta da morte, que no tarô não significa de todo morte. Significa renovação. Renovação com sacrifícios. Portanto, um corpo descarnado decepa sua própria perna na imagem. Mas apesar da dor e dos destroços, sempre olha para direita...para o futuro.
(Publicado em 19 de setembro de 2008, em São Luís)
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